Devaneios em série.

02/05/2013 § Deixe um comentário

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Uma folha em branco. Um café em uma xícara. O barulho do vento batendo na janela, uma voz rasgada saindo da caixa de som ao ritmo calmo de um violão dedilhado. No meio disso tudo e desse todo que não significava nada, Ester tentava escolher quais palavras iria usar dessa vez.

Como dizer tudo que sentia? Tudo que deixara de sentir? Tudo que não sabia se sentia?

A certeza é a dúvida mais cruel. Ela castiga quem a julga possuir, e tenta persuadir quem não a deseja. Dentre as manias de Ester, a que ela mais considerava dispensável era isso: sua fraqueza pelo certo. Não pelo certo como padrão em seguir regras pré-impostas por uma sociedade ultrapassada e hipócrita, mas sim o certo de… plano. De decisão. De “sim é sim, não é não”. De é para ser.  A insônia de não saber como sua vida prosseguiria dali para frente era muito mais incontrolável que qualquer saudade, que qualquer dúvida.

Mas há a saudade. Essa era sua outra mania detestável, também. Que bobeira é essa que o ser humano tem de sentir falta de alguém? E de alguém que… de certa forma nunca teve? Ou teve sem saber? Sei lá.. Ester banhava-se nesse sentimento nostálgico que é a ausência daquilo que desejou. Na verdade, a mania mesmo estava em sentir saudade de uma ideia criada para abastecer um sonho, uma carência, um vazio. Mas, bem, a saudade estava ali, de qualquer jeito.

Agora o mais dispensável de todos os erros humanos é sua incrível habilidade em se apaixonar. Ester era péssima nisso. Tinha paixões que duravam anos. Quase uma vida. Mergulhada em romances pré-modernos, querendo escrever em cadernos velhos linhas tortas de amores medievais.

Tudo é vício. É difícil conviver com uma mente tão inquieta e um coração tão contraditório. E se torna ainda mais difícil quando tudo isso resolve se estabelecer na mente de Ester de uma só vez, em uma noite fria, com música e café na xícara. Todas as manias, todas as paixões, todas as saudades. Todas as incertezas.

No fundo do último gole preto de coragem, Ester pega o telefone e resolve deixar os dedos dançaram pelos números que trazem a voz de um olho castanho do outro lado da linha. No fundo da última poça de sanidade e vontade, Ester fecha a alma, como quem tenta abafar uma tempestade com uma toalha quente. Quem disse que problemas antigos precisam ser resolvidos? Aliás, quem disse que não há certeza no silêncio de alguém que não consegue falar?

Ester levanta, vai pegar outro café. Deixa o coração esticado no chão, como se pensasse em voltar a usá-lo.

Mais uma mania horrível: esperança. E assim ela vive um amor marcado e um amor pra toda vida.

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