Desapareci

29/02/2016 § 2 Comentários

DESAPARECI – DEPOIS DE VIRAR MÃE.

Ninguém disse que seria fácil”, essa afirmação é unânime entre as mães. O amor que sentimos é indiscutível. Mas o que se dá na parte “ninguém disse que seria fácil”?

 Ninguém nunca mencionou que a primeira delas é lidar com sua (temporária?) invisibilidade. Pelos outros e por você mesma. Um mergulho até o fundo do poço que necessita de muita garra para voltar a emergir. Não é impossível, mas entra no “não seria fácil”.

 A partir do momento que estamos grávidas, nossas vidas parecem se tornar de domínio público. As pessoas sentem-se no direito de ter certas liberdades, de dar conselhos não solicitados na sua vida, no seu corpo (tamanho da barriga – “está gravida de gêmeos?”. E o quanto engordou, são comentários campeões),  no futuro bebê, na sua casa e até na sua vida conjugal. Ouvi muito durante toda minha gravidez: “Não reclame”. “Aproveite o seu estado de graça”. “Aproveite a atenção, a preocupação, o respeito acima do comum que as pessoas estão tendo com você agora”. “Depois de ter o bebê você se tornará invisível – ninguém ligará para você”.

E foi o que aconteceu.

Eu, no auge da minha gestação, não entendia os conselhos. Fui entender só depois de um tempo, depois de mergulhar até o fundo de um poço e tentar voltar a emergir, momento que estou agora, em que olho para trás e vejo com nitidez o que se passou e que ainda passo.

Ainda gestante, vi toda a minha vida profissional cavada em 19 anos de experiência, fora muitos anos de estudo, serem dia a dia soterrados pelo fato de eu estar grávida. Ouvi coisas horríveis. Mas tentei não me abater.

Assim que a Nicole nasceu, a invisibilidade foi nítida: ninguém se preocupa com a mãe, como ela se sente após o parto, se está com muitas dores, se está cansada, se dormiu, se se alimentou, se precisa de ajuda, enfim… já querem saber da amamentação, do tipo de parto que fez, do ganho de peso da criança, de carregar, de visitar, de beijar, de acordar a bebê, não se importando o tempo que custava fazê-la dormir …. Até aí, eu entendo e, ser invisível pelo amor que as pessoas sentem pela minha filha nunca me afetou. Mas não deixa de ser um fator de invisibilidade.

Em relação ao casamento, mudou do vinho para o vinagre. Tive um baby blues fortíssimo e o marido não entendeu bem o que se passava. Não o julgo. Ele nunca soube o que é essa tal de baby blues ou qualquer coisa que se relacione com depressão pós parto. Mas sofri muito. E calada. Pois não gosto que ninguém se preocupe comigo ou que venha a me dizer “é normal”, “que bobagem”, “que frescura” e por aí vai. Resultado não poderia ser diferente. Hostilidades. Tomei birra mesmo por algumas pessoas e até hoje tem sido difícil ter de conviver.

 Eu amo mais a Nicole do que a mim mesma. Mãe de primeira viagem, permiti essa invisibilidade: eu me sentia (sinto?) gorda, esgotada, sempre melecada de leite materno, sinto minha casa sempre zoneada (embora não esteja), meu corpo não estava como eu queria, eu não tinha tempo para mim – mas, com exceção de meu marido, não tinha em quem me apoiar, então, assumi toda a responsabilidade – calada.

Minha nova profissão, naquele momento era o de dona de casa, aquela em que você se mata pela família e sua casa e ainda poucos dão valor.

Aliado a tudo isso, eu tive dengue quando Nicole ainda não tinha nem 3 meses. Foi terrível e novamente me senti invisível.

Não sinto falta da minha vida passada, sem filhos, sinto falta de mim mesma. Da minha visibilidade como mulher charmosa, profissional dedicada, mulher guerreira que atinge a meta que quiser. Sinto falta de ser amada. Vista.

Nesses momentos, afogada no fundo do poço, o maior amor do mundo me salva. Um dia olhei no fundo dos olhos de minha filha e vi que a felicidade dela dependia da minha visibilidade. Sou o maior exemplo para ela. E meu passado não é visível aos olhos dela, que nasceu depois de tudo o que fui e conquistei.

 Então, se nesse momento eu não sou visível para ninguém, eu percebi que para ela, ainda bebezinha, eu sou tudo! Essa percepção tem aberto meus olhos e tenho lutado (ou tentado lutar) como nos velhos tempos, nado ainda contra as marés fortíssimas da inviabilidade e ainda estou às margens, mas agora posso ter a nítida visão de que a mudança deve começar única e exclusivamente por mim.

 Tenho tentado planejar melhor meu dia (apesar de os cuidados com um bebê tomar quase todo meu tempo ‘livre’), minhas funções como dona de casa, meus planos profissionais, minha dedicação à família. Preciso ainda me cuidar mais, a frequentar uma academia (emagrecer), a dialogar com as pessoas.

Ainda estou longe de me livrar da invisibilidade, mas acredito que com o tempo tudo vai mudar.

Aguardo.

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