Vida que segue.

07/02/2012 § 1 comentário

Nunca mais pensara nele. Posso afirmar que desaparecera, desfizera-se no turbilhão da vida, em tanto tempo decorrido. Penoso reencontro. Bem melhor não houvesse. Acho que o passado de vez em quando resolve pôr-se ativo, talvez por puro exibicionismo, ou, sabe-se lá, para ajudar na remissão de pecados nossos. Certo é que dá para sentir o constrangimento nesta difícil reaproximação. A gente vive encontrando pessoas todo dia. Apresentadas, ou não, vamos nos esbarrando por toda parte, com simpatia aqui, por pura obrigação ali. Sem qualquer carga de passado, um sorriso, às vezes uma vibração do corpo ainda vivo, e vezes sem conta a mais completa indiferença. Não há o sofrimento de comparações, de certeza de perda. No simples ato de viver, de circular, vamos a toda hora encontrando narizes esquisitos, orelhas desproporcionais, aparências desagradáveis, sem que isso passe de uma rápida observação logo esquecida, logo substituída na outra esquina. Essas pessoas, não temos nenhum vínculo, nenhum compromisso com elas. São assim. Quando revi – dias atrás – a casa em que vivera parte de minhas férias na infância, sofri muito. Não sabia que era tão pequena, tão modesta. O que mais me impressionou foi que estava meio abandonada, o que a tornava muito triste, também. Ninguém no mundo seria capaz de figurar a imagem que tinha guardada na memória. Nada que semelhasse aquela desolação. Custou-me algum tempo e muito sofrimento superar a tristeza que aquele instante me causou. Uma dessas razões meio inexplicáveis fez-nos estar aqui, agora, com a cerimônia obrigando gestos e palavras que cada vez mais nos empurram para a mais irracional indefinição de atitudes. Chego a pensar que o melhor a fazermos seria chorar. Sem necessidade de qualquer tipo de explicação, chorar muito. E depois, quando a conformação se instalasse, estaríamos em condição de conversar com a naturalidade necessária. Mas ninguém tem a coragem da sugestão, ambos como que tolhidos para os gestos espontâneos. Sem liberdade, restam dois fingidores de que estão satisfeitos e de que estão à vontade, num campeonato de hipocrisia. Certo, sem dúvida, que ele estará pensando da mesma forma, tendo a mesma impressão. E aí a coisa fica mais sofrida ainda, o desajeito é muito maior. Duvido que haja quem não tenha vivido uma experiência assim. E lá vamos nós, cada um, mais que o outro, doido pela oportunidade que possibilitasse o encerramento daquela fraude mal encenada. Talvez, num bar, numa oportunidade em que se pudesse tomar alguma bebida, a gente sofresse menos. Da minha parte, com duas caipirinhas já tomadas, não haveria restrição e seriam muito menos as observações. E para todas as situações, com naturalidade a gente diria que foi bom o reencontro, com a coragem necessária para registrar que houve um tempo em que não acharíamos possível nem a separação que nos atingiu, nem a deterioração do corpo que incendiava os nossos sonhos juvenis. E me ocorre agora que é bem possível que as minhas preocupações, os meus reparos, o meu desencanto, nada disso povoe o mundo do meu amigo, e que além de impiedosa eu seja dessas que completamente desconhece psicologia humana e ciências semelhantes, a ponto de não achar possível que uma pessoa ignore o desgaste do tempo e siga vivendo na mais perfeita paz, sem qualquer grilo incomodando. Tomara! E que inveja!

Vida que segue.

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