“EU SEI, MAS NÃO DEVIA”

01/03/2007 § 4 Comentários

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.

E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar o café correndo porque está atrasado.

A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá para almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.

Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro.

À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias de água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma”.

(Marina Colasanti)

ouvindo: Cúmplices (Mafalda Veiga)

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§ 4 Respostas para “EU SEI, MAS NÃO DEVIA”

  • Mira Baeta disse:

    Oi Núbia, me dá licença de fazer um aparte? A intenção não é criticar, ok? Apenas informar…
    Também amo a Clarice, mas o texto acima não é dela, e sim da Marina Colasanti.
    Ultimamente temos visto inúmeros textos sendo publicados na net com nomes de autores errados (Jabor, Veríssimo, Mario Quintana, Rubem Alves, etc.). Acho importante darmos o crédito a quem de direito.
    Espero não tê-la chateado.
    Um abraço
    Mira

    • voodalibelula disse:

      Oi Mira!!! Jamais ficaria chateada, pelo contrário! Agradeço a informação… a gente vê mesmo muitos textos por aí (assim como esse) que estão colocados com créditos errados!
      Falha sanada!
      Obrigada mais uma vez!

  • Flavia disse:

    Nubiazinha,
     
    ADOREIII seu space!!E é sempre bom, encontrar coisas tão lindas,como esse texto da Clarice Lispector,que nos coloca a refletir,sobre tudo que fazemos e acima de tudo,sobre como estamos vivendo!
    Beijão e continuarei espiando por aqui!!rsrs
     
    Flávia.  

  • Rose disse:

    Este texto da Clarice Lispector me remete a tempos em que eu o conheci e que já era tão real neste nosso mundão. Será que um dia seremos rebeldes o suficiente para modificar essas atitudes??? Eu tenho tentado e não me arrependo…viver é bom demais e precisa ser percebido antes que não seja mais possivel…!!!
    Beijos muitos,

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