Amanhã quando amanhecer digo-te adeus

11/06/2006 § Deixe um comentário

 

O dia amanheceu cinzento. Devolvi-te.
Segurei a tua mão pequenina
e dei-te ao pedaço que te perdeu.
Eras tu e não eras tu.
Tu nunca és tu dentro de ti mesmo.
Nem dentro de mim.
Tu nunca és tu.

Empurrei-te para dentro de ti mesmo.
Vomitei-te toda a noite
nos lençóis, na cama,
na ausência.
Quem sou eu dentro da minha solidão?

És a minha droga.
E eu… não te posso mais ter dentro das
minhas veias.
Deixei-te nas mãos.
Nas tuas mãos.
Nas tuas mãos quedas junto ao corpo.
Murmurei-te: "estás aqui. o teu pedaço
que te morre todos os dias. que eu renasci
todos os dias. que alimentei da minha
seiva e do meu sangue e dos meus olhos."

És tu sem seres tu.
Odeio-te…
E esse ódio rasga-me por dentro
rebenta-me as veias.

Quem sou eu dentro de mim?
Sozinha…

Abandonei-te… Mas de noite
estendo os braços para te abraçar
e te acariciar os cabelos suaves de criança
junto a mim.
"não me deixes aqui…aqui sozinha.
não me deixes…".
Eu não sei o que é o amor.

Abriste os lábios como se fosses dizer alguma coisa.
Mas não disseste.
Tu nunca dizes nada quando te abandono.
E eu deixo-te todos os dias
e volto de manhã a mim mesma.
Aqui está frio. Ainda mais frio do que estava dentro de ti.

Aqui estou sozinha.
Não posso apertar-te a mão quando me dizes
"tenho medo da solidão.
tenho medo de te destruir."
Vou-te contar um segredo,
principezinho.
Eu destrui-me a mim mesma.

Onde estás agora, principezinho,
não sei adivinhar.
Só sei que tenho a garganta apertada de lágrimas.
Porque de alguma forma estúpida
só tu me conheces.

Que merda é o amor? Sabes-me dizer?
Porque eu quis descobrir
e abri uma fenda no coração
por onde saíste tu.
"Não posso ter-te aqui" gemi eu.
E vim embora.

O mundo entrou-me pela garganta.
Mora-me no peito.
O mundo inteiro menos tu
que tive comigo demasiado tempo.

Não digas nada… porque se disseres ainda posso
trair-me e pedir-te que voltes para dentro de mim,
posso alimentar-te de novo do meu sangue.

Não digas adeus.
Nunca tive jeito para despedidas.
Eu não te amo.
Nem sei o que é o amor.
A tua criança é como um filho tenro
que tive dentro do peito e que não sei,
não sei deixar voar…

Amanhã quando amanhecer
vou preencher o teu espaço
com qualquer coisa
que ainda não encontrei.
Sinto-te a falta.
Afinal quem foi a criança dentro de quem?
Tu dentro de mim? Ou
eu dentro de ti?

Amanhã quando amanhecer
digo-te adeus.

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